26 de Dezembro de 2013.
Não consegui dormir direito. Segunda noite seguida já, mas não deu pra estragar o humor não. Acordei de manhã ouvindo a água correr no rio, a brisa agitando as folhas das árvores e alguns acordes de violão conversando com os passarinhos. Só lindezas.
Dei uma esticada e tentei esquecer que tava cansada. Comi um pão e uma maçã que eu tinha e tomei um gole da água que tava na nossa "geladeira". Foi só um gole mesmo, por que a água tava com gosto esquisito, que você sentia só depois de já ter engolido. Eca. Eca. Perguntei onde tinham comprado, e descobri que tinham enchido as garrafas na casa de uma senhora que morava ali perto (um adendo cultural: aqui na Argentina se toma água da torneira). Ok, né?
Pus meu biquini e fui tomar um banho no rio pra terminar de acordar. Água geladésima, rasinha e corrente. Prendi meu pé numa pedra e deitei pra me molhar. O gelo da água incomodou um tempo, mas depois me acostumei. Fiquei um tempo ali olhando pro céu. Que paz! Só não demorei muito mais por que comecei a não sentir meus dedos haha.
Uma mulher e sua filha de 7 anos viajavam com a gente também (essa criança, inclusive, me deixou de cara com sua independência.. a menina se virava muito bem e era muito gente boa). Quando saí da água, a mulher me disse que mais pra cima do rio tinha um ponto que dava pra tomar banho tranquila. Perguntei se queria dizer tomar banho, banho mesmo com shampoo, condicionador, etc e a resposta foi positiva.
- No rio, sério?
- Si, si! No pasa nada! Podés bañarte ahí!
Quando vi, tinham mais 3 meninas fazendo a mesma coisa. Tentei explicar que isso não era uma coisa legal pra se fazer, por que não era legal pro rio, que a espuma ficava presa nas pedras, etc. Mas eu com meu espanhol capenga não consegui ser muito convincente. Chateada.
Arrumei minha mochila pequena e saí pra procurar um lugar pra comprar água e um lugar decente pra tomar banho. Quando ia sair, duas das meninas pediram que eu esperasse pra elas irem junto, por que queriam tentar conseguir mais água pra encher as garrafas. Caminhamos até fora da área do camping e chegamos numa casa simples que tinha ali perto. Uma das meninas pediu pra usar o banheiro e o senhor, que nos viu carregando um monte de garrafa, nos ofereceu água. Ele foi até um tonel que tinha no seu quintal, o abriu e encheu as garrafas. Estranhei a naturalidade com qual uma das meninas aceitou as garrafas cheias, por que a água tinha uma coloração meio marrom. Depois que o senhor saiu, perguntei:
- Essa água você tá pegando pra beber?
- É.
- Mulher, dá uma olhada na cor disso aqui, isso né pra beber não!
Saimos da casa do senhor, agradecemos e jogamos a água fora, mais pra frente. A outra menina que ia conosco disse que era melhor pegar a água na casa da senhora com quem ela tinha pego antes. Fomos até lá e enchemos as garrafas. Água incolor, mas tomei um gole e tinha o mesmo gosto ruim da que tinha tomado de manhã. Incrível como elas não estavam se preocupando muito com a qualidade da água que bebiam. Sugeri que comprassem água, mas nem elas nem ninguém mais tava muito afim de gastar dinheiro com isso.
Disse então a elas que eu ia tentar encontrar um lugar pra tomar banho e comprar água mineral pra mim. Elas seguiram de volta pro camping.
Fui até um kiosco e comprei uma garrafa de água mineral, pão, queijo e perguntei onde eu poderia pagar pra tomar banho. A moça me apontou um outro camping que tinha do outro lado do rio, e eu fui até lá. Acho que era por volta de umas 11h, o sol já tava fortinho mas tava tranquilo pra caminhar.
Disse então a elas que eu ia tentar encontrar um lugar pra tomar banho e comprar água mineral pra mim. Elas seguiram de volta pro camping.
Fui até um kiosco e comprei uma garrafa de água mineral, pão, queijo e perguntei onde eu poderia pagar pra tomar banho. A moça me apontou um outro camping que tinha do outro lado do rio, e eu fui até lá. Acho que era por volta de umas 11h, o sol já tava fortinho mas tava tranquilo pra caminhar.
Chegando no tal camping, procurei pelo dono e lhe perguntei quanto custava tomar banho. Ele ficou um tanto surpreso, disse que ninguém nunca tinha pedido isso e me deixou tomar banho de buenas e de graça. O banheiro era tipo esses vestiários de camping: vários chuveiros, super limpinho e organizado. Massa! Eu tava mesmo doida pra tirar 24 horas de trem + chão de estação de ônibus + plantinhas do rio gelado da minha pele e cabelo. E estava especialmente morrendo de calor (e de sede).
Acho que nunca senti tanto gosto por tomar um banho! A água nem tava muito fria, mas pelo menos não tinha cheiro nem cor ;D Diliça! Aproveitei também pra usar a tomada dali pra recarregar o telefone.
Pessoa limpa, 20% de bateria e !listo! Quase toda renovada. Só tinha ainda fome e muita sede. Pus o telefone no modo avião para economizar a bateria e voltei pro camping.
Comi meu sanduíche, bebi água e fui sondar se o pessoal tinha intenções de seguir viagem ainda naquele dia pra Salta. Não senti muito clima de empolgação, mas soube que 3 dos meninos seguiriam ainda naquela tarde, por volta de umas 4 horas. Iam pegar um ônibus até a Ruta 9 e tentar hacer dedo (pedir carona) pra direção norte. Decidi que iria com eles.
Mais tarde, vi que o pessoal tava preparando um almoço, que compartilhamos (dessa vez foi macarrão com verdura). E rolou aquele digestivo depois... ;D Saciada a fome e liberada as idéias, os meninos se juntaram pra praticar suas musicalidades. Ouvi eles ensaiando uma música por um tempo e resolvi chegar junto pra ver qual era. Estavam ensaiando uma versão da música Cuatro Ebrios, de Bersuit.
Manuel (o do violão e segunda voz) me explicou que essa é uma banda argentina, mas que o estilo de música é uruguaio. A letra fala sobre a banalização da figura do Che Guevara. Eles fizeram uma versão linda, dá uma sacada:
Eles continuaram ensaiando por um tempo ainda. Eu voltei pra perto das barracas, onde duas das meninas estavam compartindo um mate. Sentamos na beira do rio. Pezinhos na água gelada, e matecito passando de mão em mão. Se tem um negócio que eu me viciei nessa viagem foi o tal do mate. Gostei dele bem amarguinho mesmo! Ficamos conversando um tempo ali.
Umas 3:30, notei alguns dos meninos arrumando suas coisas pra partir. Desarmei minha barraca, arrumei a mochila e segui com eles. O sol parecia pesar em cima da mochila. Tava difícil caminhar e minha sede não passava nunca. Meu estômago tava já cheio de água e ainda assim a sede não passava. Parei em um kiosco pra comprar mais água, com a mochila nas costas. Os meninos compraram água também, encheram a garrafa térmica e seguimos pra parada de ônibus. Quando baixei minha mochila, reparei que meu saco de dormir tinha sumido. Voltei ainda um pouco no caminho pra ver se tinha caído, eles ligaram pro pessoal que ficou no camping pra ver se tava lá e nada. Conclusão: a mão leve. Ele tava preso na lateral da minha mochila, então alguém tirou e eu nem percebi. Chateada #2. Fiquei um tempo refletindo sobre isso. Tínhamos tempo, por que o ônibus só chegaria daí a 1 hora.
Estávamos na sombra da parada de ônibus, mas a impressão é que estávamos em um forno. Minha cabeça tava bem quente do sol da caminhada, o estômago cheio de água, a boca seca e na pele calor, muito calor. Comecei a me sentir mal. Comecei a sentir que precisava vomitar.
Peguei minhas coisas e voltei pro camping, onde tinha sombra fresca, pra ver se melhorava. Essa caminhada de volta foi mais difícil, por que já não tava bem e meio que piorou meu estado.
Quando cheguei lá, todos já tinham arrumado as mochilas e estavam prontos pra ir embora também. Larguei a mochila no chão e deitei na grama. Me sentia muito fraca. O pessoal se preocupou, perguntou o que houve e eu expliquei e disse que não tava bem. Fui até o matinho mais atrás e vomitei. Água, apenas. Muita água. O pessoal já estava de saída, então os meninos se dividiram pra levar minha mochila. Segui com eles e fomos de volta para a parada de ônibus.
Manuel recebeu uma mensagem dos outros meninos: eles já tinham seguido pra Ruta 9 e já tinham conseguido pegar o último ônibus que os levaria pra Salta, então todos decidiram por pagar um remis (uma espécie de taxi) até a estrada, pra daí pegarem carona pra Salta. Eu ainda vomitei umas 3 vezes mais nesse meio tempo, então decidi que isso seria pesado pra mim. Resolvi ficar pra pegar o último ônibus de volta pra capital de Tucumán, onde eu passaria a noite num hostel pra tratar de ficar boa. Me despedi de todo mundo e ficamos de nos encontrar por aí.
Uns 10 minutos depois o ônibus chegou. Eu subi e me sentei. Morta.
Seriam 30 minutos de viagem até Tucumán. Uma eternidade, pro meu estômago nauseado. E acho que eu devia estar com uma bela expressão de zumbi atropelado, por que um rapaz chamado Juan veio se sentar próximo a mim e perguntar se eu tava bem. Contei pra ele da minha saga.
Seriam 30 minutos de viagem até Tucumán. Uma eternidade, pro meu estômago nauseado. E acho que eu devia estar com uma bela expressão de zumbi atropelado, por que um rapaz chamado Juan veio se sentar próximo a mim e perguntar se eu tava bem. Contei pra ele da minha saga.
Ele é nascido e criado em Tucumán, então depois que eu contei a história ele começou a sessão revelações: Me disse que eu acampei na beira do rio mais sujo que havia naquela região (o rio Loro), por que aquelas águas já tinham passado pela represa quem tem ali. E que aquelas plantinhas que estavam grudando na minha pele eram nada mais que algas do rio que tinham sido processadas pela hidrelétrica. E que apesar (ou justamente por causa) da represa, Cadillal está com um problema sério de abastecimento de água, e que é um dos poucos lugares na Argentina onde não é seguro tomar água da torneira. E por fim, que nesse país 4 horas da tarde é a pior hora pra se caminhar debaixo do sol, no verão. Ainda mais sem chapéu, mal dormida e carregando mochila pesada. Limpeza?
Acho que as revelações contribuiram pra minha náusea, por que vomitei mais 3 vezes. Sorte que Juan tinha uma sacola na bolsa dele, que ele me ofereceu e segurou enquanto eu me desmanchava ali. Bela maneira de se conhecer alguém, não?
Mas Juan foi um anjo: quando descemos carregou minha mochila, me acompanhou até o hostel e prometeu me apresentar Tucumán decentemente no dia seguinte. Depois dessa história ele precisava lavar a honra do seu estado. Com água limpa.
Mas Juan foi um anjo: quando descemos carregou minha mochila, me acompanhou até o hostel e prometeu me apresentar Tucumán decentemente no dia seguinte. Depois dessa história ele precisava lavar a honra do seu estado. Com água limpa.
Chegando no hostel, acomodei minhas coisas, me despedi de Juan e saí pra buscar um hospital. Encontrei um, paguei pela consulta, esperei 1 hora na fila e o médico disse que eu não tinha nada. Voltei emputecida (e nauseada) pro hostel e decidi então aceitar a sugestão de Juan, que tinha me dito que talvez meu problema todo fosse alguma coisa entre cansaço, fome e desidratação. Tomei um banho e roubei o limão de alguém na geladeira pra me fazer um suco. Tive ainda um resquício de energia pra conhecer, conversar e cantar uma música com dois argentinos que tavam hospedados ali (que depois descobri que também vieram no mesmo trem que eu) e, finalmente, fui deitar. O quarto tava meio quente, mas acho que não demorou 10 segundos para que eu apagasse completamente.