| Primeiro de muitos selfies haha |
24 de Dezembro de 2013.
Véspera de Natal. Em Buenos Aires já é feriado. Tudo está fechado, todos dormiam e eu me levantei às 4 da matina pra tomar uma boa ducha, tomar café, colocar a roupa que tinha separado e partir. Meu trem sairia às 7:30. Tínhamos visita em casa, a família de Bel e de Íris que estavam agora no quarto de Caitlin. Ela ia ficar com meu quarto por esses dias, enquanto estivéssemos longe, e já estava dormindo aqui. Com tudo pronto, acordei ela pra dar tchau. Ela estava tão empolgada quanto eu e se levantou pra me dar um abraço de boa viagem. Chequei se estava tudo ok na bagagem e partiu.
Véspera de Natal. Em Buenos Aires já é feriado. Tudo está fechado, todos dormiam e eu me levantei às 4 da matina pra tomar uma boa ducha, tomar café, colocar a roupa que tinha separado e partir. Meu trem sairia às 7:30. Tínhamos visita em casa, a família de Bel e de Íris que estavam agora no quarto de Caitlin. Ela ia ficar com meu quarto por esses dias, enquanto estivéssemos longe, e já estava dormindo aqui. Com tudo pronto, acordei ela pra dar tchau. Ela estava tão empolgada quanto eu e se levantou pra me dar um abraço de boa viagem. Chequei se estava tudo ok na bagagem e partiu.
Enquanto caminhava pelas ruas vazias, senti que me arrependeria logo logo por não ter comprado um tênis adequado pra caminhada. A mochila pesava, e meus joelhos e calcanhares já sentiam a diferença. Mas agora já era. "Depois vejo isso", pensei.
Caminhei até a estação Bulnes do metrô e tomei o primeiro trem do dia, até a estação 9 de Julio para fazer a combinación com a linha C, que me deixaria dentro da estação de trens de Buenos Aires (Retiro). Mas parei aí mesmo na 9 de Julio. Essa linha estava interditada "por duración breve". Esperei 15 minutos e nada de metrô. Desisti e subi à superfície pra tomar um taxi mesmo.
![]() |
| Las galeras |
Ao chegar na estação Retiro comecei a ver uns mochileiros. Um montão deles, aliás. A grande maioria estava na fila do portão 8, pra tomar justamente o trem que eu tomaria.
Na plataforma do trem, mais mochileiros! Havia também bastante famílias, e alguns senhores ou senhoras que aparentemente estavam indo visitar seus parentes no interior.
Havia um grupo grande de mochileiros sentados no chão, esperando o trem apitar. Estavam tocando instrumentos, conversando, comendo alguma coisa e, claro, tomando mate. Me juntei a alguns deles, me apresentei. A maioria era de Mercedes (cidade na província de Buenos Aires) e queriam chegar até o Perú. O que já achei ótimo, por que a princípio, iríamos fazer o mesmo recorrido até a Bolívia, então de cara eu já tinha pelo menos 10 pessoas pra viajar comigo. Hahay!
Não demorou muito e o tio já anunciou que o trem ia sair. O meu vagão era o último (ou o primeiro, dependendo da direção que o trem ia ;D). Minha passagem baratinha era para a "clase turista", eufemismo para "geral". Os assentos não eram exatamente um exemplo de conforto e eram meio pequenos. Tratei de testar se eu caberia ali pra dormir, e não, eu ia ter que me encolher pra deitar.
![]() |
| Meu vagão |
Lição de vida #1 da viagem: um sinal de que você tá fazendo o que gosta é que você não liga muito pras consequências. Eu sabia que ia passar mais de 24 horas ali dentro do trem sem muito conforto e estava especialmente empolgada com isso. De certa forma eu estava querendo mesmo passar perrengue. Acho que a viagem não teria metade da graça que teve se fosse tudo certinho e confortável.
O trem partiu e eu tratei de socializar com os vizinhos de banco. Na minha frente sentava um senhor que ia viajar até La Banda (uma estação antes da minha), que tinha ido a Buenos Aires para fazer algum tratamento médico. Ao meu lado, uma senhora que seguia para Tucumán também. Não entendi direito o que ela fazia em Buenos Aires, mas tinha família em uma cidade perto de San Miguel (capital de Tucumán). Veja bem, nesse ponto da viagem meu espanhol ainda estava um pouco deficiente (4 meses morando com gringos ou brasileiras não me fizeram exatamente praticar esse idioma), então eu ainda tinha dificuldade pra entender algumas pessoas. Especialmente as que tinham um sotaque mais carregado. Na frente dessa senhora, e no assento de trás, estavam um grupo de uns 4 chicos argentinos de La Plata, que estavam viajando para o norte da Argentina. Iam acampar num povoado perto de Salta. Ouvi um deles afinando o violão. Curti! Tava mesmo afim de conhecer música argentina. Mas eles não ficaram ali muito tempo, tinham uns amigos sentados em outro vagão, então foram sentar perto deles. Fiquei conversando com o senhor e a senhora que estavam perto de mim.
![]() |
| Eu, Michele e Alex |
Não muito tempo depois, fizemos a primeira parada na estação de Rosário, onde pude comprar uma salada de fruta, comprar gelo, água gelada e aquele pessoal que conheci na plataforma do trem, em Buenos Aires, me chamou pra compartir um porro (como eles chamam um baseado aqui). Nessa estação, subiram algumas pessoas. Entre elas, um casal que se sentou perto de mim. Alex, um peruano e Michele, de Costa Rica. Os dois moravam em La Plata, mas estavam agora mochilando por aí. Não lembro bem até onde iam.
Na hora do almoço, fui até o vagão-lanchonete (coche comedor) pra ver o que rolava. No caminho, ainda no meu vagão, escutei um coral cantando. Quando olhei, o mesmo pessoal que me chamou pro baseado estava ali cantando e olhando para umas partituras enquanto eram regidos por um senhor. Achei a cena interessante, e eles estavam cantando muito bem. Continuei andando. Daí a dois vagões encontrei os meninos que estavam sentados perto de mim antes. Estavam com três violões, um charango (espécie de violão pequeno, lembra o cavaquinho) e um bongô, tocando belas canções em espanhol. Parei pra ouvir. Me perguntaram de onde eu era e quando eu disse, um dos meninos começou a dedilhar Chega de Saudade. Fiquei um tempo ali com eles cantando música brasileira. Me surpreendi como eles conheciam bastante os sambas antigos, e como eu não conhecia quase nada de música argentina, ou uruguaia, ou paraguaia, ou chilena, ou peruana... Mas foi bom pra começar a conhecer.
Não sei se pela língua, ou pela proximidade das fronteiras, mas existe uma troca cultural muito grande entre as pessoas de países da américa hispânica. Tive uma sensação de que o Brasil vive culturalmente muito isolado dentro da sua imensidão. Nunca tinha ouvido falar de candombe, murga, cueca, milonga ou de Bersuit antes de vir para cá.
Não sei se pela língua, ou pela proximidade das fronteiras, mas existe uma troca cultural muito grande entre as pessoas de países da américa hispânica. Tive uma sensação de que o Brasil vive culturalmente muito isolado dentro da sua imensidão. Nunca tinha ouvido falar de candombe, murga, cueca, milonga ou de Bersuit antes de vir para cá.
A fome apertou e fui pro coche comedor procurar un almuerzo. Só vendiam sanduíches com carne naquela hora, então voltei pro meu assento e pro meu pão com queijo e minha laranja.
![]() |
| Ventana de acrilico, paisaje y calor |
O sol do meio-dia e o clima um tanto seco lá fora estava esquentando bastante o trem. Nesses vagões da geral (classe turística) não rolava ar condicionado, e pra completar, as janelas estavam cobertas por uma proteção de acrílico (aparentemente pra proteger os passageiros de pedras que crianças costumam jogar no trem) que não deixava entrar muito vento. Tava quente e tudo meio quieto. Fiquei observando a paisagem. Alex e Michelle estavam tecendo pulseiras. Coisa, aliás, que um montão de gente no trem estava fazendo. Alex me perguntou se eu queria aprender a fazer e ele e Michelle me ensinaram. Tinha bastante tempo no trem, então aprendi direitinho!
![]() |
| Musica y pulsera |
Una chica chamada Silvina veio me chamar pra me juntar ao grupo em que estava. Era justamente o grupo que estava cantando em coral com partituras quando passei pro coche comedor. Estavam bem animados tocando música, e em uma garrafa térmica enorme estava rolando um fernet com coca-cola geladinho. Eu não curtia muito essa bebida (típica da argentina), mas no calor que tava, achei essa ela especialmente deliciosa e refrescante!
Tocavam músicas que eu não conhecia, mas que depois algumas delas viriam a se tornar tema recorrente durante toda a minha viagem. Uma delas, Devolve la bolsa, fui ouvir de novo uns 15 dias depois, no Chile.
Conversando com eles, descobri que a maioria era estudante de música, e o senhor era o professor. Alguns deles tinham se conhecido ali mesmo no trem, e todos queriam ir conhecer o Machu Picchu. Algumas canções e goles de fernet depois, voltei pro meu assento pra dormir um pouco.
Conversando com eles, descobri que a maioria era estudante de música, e o senhor era o professor. Alguns deles tinham se conhecido ali mesmo no trem, e todos queriam ir conhecer o Machu Picchu. Algumas canções e goles de fernet depois, voltei pro meu assento pra dormir um pouco.
A viagem seguiu mais ou menos assim. Alternava entre dormir, conversar com meus vecinos, ouvir e cantar música, ler um pouco, observar a paisagem, escrever no diário, sentir calor e beber alguma coisa gelada. Fizemos mais algumas paradas em mais duas estações para todos descerem, esticarem as pernas, respirarem ar fresco e comprar água.
Com o tempo e o calor o trem foi ficando um pouco sujo. As pessoas se molhavam bastante com água gelada, e o chão de alguns vagões estava meio lamacento. Por sorte, meu vagão por ser o último era o que menos a galera procurava para ir ao banheiro. Então pelo menos isso ficou limpo até o fim da viagem.
De noite (noite aqui no verão começa às 21h) comprei uma janta pra mim no trem. Macarrão ao molho branco, salada e um refrigerante. Como quase todo prato vendido na Argentina, veio com muita comida. Quando deu meia-noite, compartilhei com meus vizinhos de banco, que dividiram comigo alguns petiscos. Uma família que sentava perto da gente mandou sua caçula passear pelo vagão oferecendo doces pra todo mundo. O pessoal musical de Mercedes garantiram a trilha sonora, que contagiou a todos do vagão.
E assim, comemoramos nosso Natal! :D
![]() |
| Feliz Navidad! |
Foi um dia muito especial esse. Me senti bem-vinda à estrada, e senti mesmo que o trem era minha casa por aquele dia, e que todos ali eram um pouco minha família.
Pude praticar finalmente aquela frase que diz que "a felicidade é o próprio trem, e não uma estação". Por que a viagem foi longa e um tanto desconfortável, mas foram raras as vezes que eu pensava em chegar logo. Cada momento estava sendo maravilhoso, e decidi que queria levar comigo esta prática e esse pensamento para toda a viagem, acontecesse o que tivesse que acontecer.
Na verdade, isso é o tipo de coisa que se leva para a vida.
Na verdade, isso é o tipo de coisa que se leva para a vida.






Que foda *-*
ResponderExcluirDo caralho! <3 que lindo, que orgulho!
ResponderExcluirQue coisa mais lindaaa, me emcionei aqui =~~
ResponderExcluir